Edição #3
Sou paulista, mas hoje vivo no Piauí. Depois de quase três anos por aqui, decidi me aventurar gastronomicamente. Trago comigo raízes nordestinas e memórias de uma família humilde, onde cada refeição era mais que sustento: era afeto, partilha e história. Agora, quero explorar novos sabores, contar a trajetória de quem os cria e partilhar a experiência que cada prato desperta.
Desde que meu filho nasceu, as palavras "sozinha" e "raramente" andam juntas na mesma frase. Estamos sempre grudados, mas hoje decidi abrir uma pequena exceção. Minha primeira aventura solo em muito tempo teve um destino especial: a cafeteria Oiko (Teresina - PI), para um workshop de café.
A experiência foi tão incrível que eu precisava compartilhar com vocês esse lado da gastronomia que vivemos dentro de casa todas as manhãs, mas ao qual, na correria, raramente damos atenção. O encontro foi uma Introdução ao Sensorial de Cafés, onde mergulhamos nos aromas, sabores e nuances dos grãos especiais.
A arte por trás da xícara
O workshop foi ministrado por Neylon Campelo, sócio da Oiko e Barista Certificado SCA. Ele nos contou que se tornou barista por necessidade — era caro contratar alguém para treinar a equipe, então ele mesmo foi lá e se especializou. Hoje, ele transborda esse conhecimento para curiosos e apaixonados pelo “bom e velho cafézinho” como eu.
Memória e Olfato
A primeira tarefa foi um exercício simples: identificar ingredientes apenas pelo olfato, confesso que já gostei de cara. Fechar os olhos e permitir que o cheiro falasse conosco nos mostrou que o olfato tem memória, exatamente como o paladar. Em seguida experimentamos o primeiro café, com uma missão: identificar o aroma. Parece simples, mas o cérebro precisa de foco, silêncio e pequenos - mas muitos - goles.
Curiosidade: Você sabia que a temperatura do café altera nossa percepção? Tomar a bebida extremamente quente muitas vezes mascara os sabores reais; é conforme ele esfria que as notas se revelam de verdade.
Nesse primeiro café as notas incluíam caju, castanha de caju, abacaxi e frutas amarelas. Existe algo mais piauiense que caju? Claro que não, por isso foi unânime todo mundo acertou. O que não aconteceu com o café seguinte, que era um pouco mais doce, e muito mais intenso.
O que faz um café ser especial?
Aprendemos que, para um café ser considerado “especial”, ele passa por um rigoroso protocolo técnico que avalia:
Fragrância e aroma;
Sabor e retrogosto;
Acidez, corpo e doçura;
Uniformidade e ausência de defeitos.
Para entrar nesse grupo, o café precisa marcar, no mínimo, 85 pontos em uma escala técnica. Quanto maior a pontuação, mais complexa e “limpa” é a bebida.
Passamos pelo Cupping (a degustação técnica) e nos foi apresentado a técnica Le Nez du Café, que é quase uma “academia para o nariz”, um treino para reconhecer cheiros de forma objetiva, sem deixar que a memória afetiva confunda quem está vivendo a experiência. Por fim, enfrentamos a Triangulação — a parte mais difícil para mim, prova-se três xícaras: duas iguais e uma diferente, o desafio é descobrir qual é a “intrusa”. Meus amigos, não é nada fácil!
O veredito
Ver o barista preparar o café ao vivo me mostrou que isso é, sem dúvidas, uma arte. Existe técnica, proporção exata e muito amor envolvido.
Aquele café tradicional - o meu favorito é o mellita - (que nem de longe é especial) ainda tem seu valor afetivo, mas não dá para negar: depois de conhecer os grãos especiais, a gente percebe que o que costumamos consumir no dia a dia são, muitas vezes, “folhas e galhos queimados”.
Ao final do workshop, Neylon Campelo, deixou escapar que esse era apenas o primeiro, que a ideia é ir avançando, e que possivelmente a próxima etapa será “Harmonização”. Alguém tem dúvidas de que meu nome é PRONTA?
Essa foi a minha primeira aventura sozinha me inspirou a estar muito mais presente por aqui, compartilhando essas descobertas gourmets e afetivas com vocês, além de toda memória que volta sempre que essas experiências me encontram.
Mas e por aí, qual aquela memória o cheiro de café sempre traz para você?
Nota:
Fui à cafeteria especialmente para o workshop, o que não me possibilitou experimentar o cardápio regular. Fica aqui o meu compromisso de voltar para a experiência completa. O ambiente é super intimista, com mesas internas e externas, luzes amarelas e um atendimento humano, sem ser inconveniente.
🤍 Leia também:



Eu achei esse texto tão a sua cara. Deu pra sentir daqui a felicidade que foi esse momento pra você <3
Minha vó morou numa fazenda d produção de café. Era comum irmos passar o Natal lá e ela estar fazendo uma torra. Eu adorava passar os grãos no moedor que era antigo e manual. Cheiro de café torrado sempre me lembra a ela.
Amei a sua experiência e as curiosidades sobre o café, como a temperatura por exemplo. Que venham muitas experiências solos pela frente <3